quarta-feira, 19 de maio de 2010

Conexão

Quando estamos longe de pessoas amadas, sem esperarmos, abruptamente, somos assaltados por um sentimento de falta, que a língua portuguesa, ao que tudo indica, traduziu com uma precisão única: estamos sentindo SAUDADES. Nossos sentimentos são acessados, imagens flutuam em nossa mente, o que há é a falta. Tenho aprendido com esta experiência.


Entendi, e confesso que venho entendendo, que onde eu estiver, estará comigo também meu Pai. Este Deus amoroso, que se preocupa comigo e tem me ajudado a fazer grandes descobertas. Estar em Deus nos ajuda a sentir saudades, pois nele percebemos a importância das pessoas, entendemos que as coisas mais valiosas que temos são os vínculos construídos ao longo dos anos.


Tem penetrado em meu coração a importância do instante. Rubem Alves dizia mais ou menos assim: quem sabe que a vida está fugindo descobre subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será. Cada instante é tempo para gozar da presença do outro, para amar intensamente, para abençoar, para perdoar, para conectar-se.


É certo que a saudade pode trazer consigo uma certa sensação melancólica mas, em minha experiência, também tem apresentado um sentimento de orgulho. Não um orgulho egóico, ou seja, fundado no eu, mas um sentimento que me conduz a reconhecer o quanto eu sou privilegiado. Privilegiado pelos pais e irmã que tenho, por uma esposa maravilhosa, por sogros incríveis, por uma família querida e por amigos especialíssimos.


Que engraçado... Mesmo longe me sinto mais conectado e com esperança de conectar-me ainda mais quando estiver perto.



segunda-feira, 19 de abril de 2010

“Enquanto houver sol ainda haverá esperança”

Estava pesquisando para escrever algo inspirado no texto de Vinícios de Moraes, a casa. Mas, viajando pela internet, descobri um filme que me fez adiar este desejo por um pouco mais de tempo.

http://www.youtube.com/watch?v=pGYWAmt2kJQ&feature=related

Este testemunho vivo fala de uma grande verdade: a vida é dura. Viver significa enfrentar obstáculos, lidar com desafios, encarar medos... Jesus já nos antecipava: “No mundo tereis aflições...” Mas também, não deixou de nos dizer: “tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33). A verdade é que “enquanto houver sol ainda haverá esperança”.

Eu acredito que Deus deu ao homem uma capacidade de superação incrível, e que, aquele que entende isto, descobre a beleza de manter os seus sonhos e de buscá-los. Podemos e devemos manter nosso rumo. Mas é preciso se atrever, trabalhar, aprender... Sair da zona de conforto.

É possível alçar altos vôos. Ainda mais quando estendemos nossas asas para captarmos o sopro divino. Este vento que nos impulsiona para alturas nunca antes sonhadas. “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam”(I Coríntios 2:9).

terça-feira, 6 de abril de 2010

Vivendo a Páscoa


Eu nasci e cresci em uma pequena e charmosa cidade, do litoral nordestino, chamada João Pessoa. Na minha infância, algumas vezes ao ano, meus avôs paternos viajavam a Recife para fazer compras e passear no shopping. Na época, ele era considerado o maior da America do Sul; sem falar que em João Pessoa não tinha um empreendimento como aquele.

Algumas vezes, eu e meus pais íamos com voinha e voinho. Quando minha avó ou meus pais me diziam que no próximo sábado viajaríamos para Recife eu realmente ficava sonhando. Aquela informação era, para mim, uma passagem para um “outro mundo”, a possibilidade de ver enormes prédios, avenidas, um shopping gigante repleto de satisfações. Não me esqueço das cores e luzes daquele lugar, dos brinquedos, dos lanches, era um verdadeiro paraíso para uma criança. Havia muitos motivos para festejar, para sentir um coração que se inundava de alegria. Acho que meus pais percebiam isto.

Neste fim de semana os cristãos, ao redor do mundo, comemoram a páscoa. Na verdade, muita gente, cristão professo ou não, comemoram a páscoa. Este é o fim de semana dos ovos de chocolate, das viagens oportunizadas pelo feriado e, somente, para muitos. Este é o fim de semana para se ir a uma missa ou culto único ao ano, completamente desconectado com a vida daqueles que assim o fazem. Este é um fim de semana de celebração e de louvor a Deus, fruto de uma vida dedicada, isto porque, através do seu filho, ele nos apresentou a páscoa.

Páscoa significa passagem. Certamente há uma conexão entre esta palavra e a libertação que o Senhor operou sobre o povo de Israel, pois eram cativos dos egípcios (Êxodo 12 a 15). Páscoa, então, pode significar libertação. O povo liberto teve o seu coração incendiado pela perspectiva da terra prometida, ou seja, páscoa pode significar ainda, esperança. Mas o povo pecou, na verdade, ao longo da historia, não houve quem não pecasse; e Deus, não compartilha com o pecado.

Anos e anos se passaram depois da primeira páscoa até que um jovem aproximou-se de um profeta respeitadíssimo, chamado João Batista, para ser batizado por ele. João ao fitar os seus olhos nele disse: “eu é que preciso ser batizado por ti” (Mateus 3:14). Mas, dissuadido por aquele jovem, o batizou. Este é aquele sobre o qual o próprio João Batista afirmou: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”(João 1:29). Jesus, o cordeiro de Deus, que morreu em uma cruz para salvar. Ele é a páscoa de todos aqueles que nele crêem. Pois o seu sacrifício foi para a libertação, de uma vida de pecado para uma vida que caminha a eternidade, um tempo que está para além da mente mais criativa.

Se a notícia para ir a um shopping fazia tremer o coração de uma criança, o que dizer do conhecimento de tão grande evento? Nosso Pai nos apresentou a páscoa como expressão do seu amor (João 3:16). O Deus, todo poderoso, nos ama e nos entregou seu único filho, apontando-nos um novo caminho. É tempo de ratificar nossa fidelidade, de nos alegrarmos na presença do nosso Deus, de anelarmos ainda mais a salvação eterna e de compartilharmos com nossos queridos a boa nova do Senhor. Como crianças que receberam tão maravilhosa informação, louvemos ao Senhor, pois a própria escritura anuncia: “da boca de criancinhas surge o perfeito louvor”(Mateus 21:16).

terça-feira, 30 de março de 2010

O excelente caminho

Viver implica trilhar muitos caminhos, fazer escolhas. Quando éramos pequenos, nossos pais escolheram seus caminhos e nos levaram juntos. Todos nós trazemos conosco profundas reminiscências dos bons e maus caminhos dos nossos pais. Elas nos marcaram.

Existem pessoas que são muito gratas pelo seu passado, seus pais trilharam por bons caminhos em maior freqüência. Com certeza estas pessoas foram amadas, valorizadas, educadas, cuidadas e, por esta sorte, podem ser mais suscetíveis ao amor, ao exercício de bons valores morais e, se assim fizerem, certamente colherão bons frutos. Há aquelas que, infelizmente, acompanharam seus pais por terríveis percalços, por caminhos sinuosos e tenebrosos. Com tristeza constatamos que estas pessoas trazem consigo profundas cicatrizes e, não raro, profundas feridas. Elas podem ser mais suscetíveis a dar continuidade ao ciclo pernicioso ao qual seus pais estiveram presos.

Sabemos que ninguém trilha apenas caminhos bons, e também, que ninguém trilha apenas caminhos maus. Há uma verdade que se impõe: somos pecadores (Romanos 3:23; Romanos 6:23) e, por isso, erramos muitas vezes. É certo, entretanto, que decisões trazem conseqüências e, por conseguinte, marcas. Diante desta realidade somos iluminados pela palavra de Pedro: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna, e nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (João 6:68-69). Conquanto tenhamos nossas marcas, sejam boas ou más, se descortina uma esperança: há um caminho excelente a ser seguido.

Certa vez aproximou-se de Jesus um jovem rico (Mateus 19:16-22) e perguntou: “Mestre, o que farei para ter a vida eterna?” Jesus retorquiu, “você tem seguido as orientações da lei: não matarás, não cometerás adultério, não furtarás...” Ao ouvir aquelas palavras o jovem se alegrou, “tudo isto tenho feito desde a minha mocidade”. Fico a pensar que aquele jovem foi muito bem criado pelos seus pais, eles lhe deram uma base para que ele, diante de Jesus, pudesse fazer tão significativa e verdadeira afirmação. No entanto, frustrando as expectativas do jovem, Jesus disse: “se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me”.

Em outro momento da sua vida, Jesus disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vos o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma” (Mateus 11:28-29).

A luz destes dois relatos entendemos que termos sido afortunados com boas famílias e o hábito de trilhar bons caminhos não é tudo. A bíblia diz: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mateus 16:26). Compreendemos também que a dor humana toca o coração de Deus e que ele certamente quer fazer daqueles que estão quebrados, vasos de honra; quer dar aqueles que estão em prantos, alegria, aqueles que são faltos de esperança, fé. Mas, embora seja vontade de Deus que a nossa vida seja dirigida por seus valores, ele quer que, sobretudo, nós possamos nos entregar a Jesus Cristo, pois este é o excelente caminho que traz cura a alma e que perpassa a nossa vida, nos conduzindo a eternidade.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Constatações II



Olho do meu lado esquerdo e vejo em cima da mesa um relógio, verde claro, tipo despertador e ouço o seu tique-taque. Você pode ouvi-lo, querido leitor? Penso sobre o tempo... Sobre tantas coisas boas do meu passado. Talvez você devesse fazer este exercício. Coisas simplesmente deleitáveis. Verdade... Deleitáveis e simples.


Lembro-me, difusamente, do momento em que ganhei a bicicleta vermelha dos meus pais. A imagem não está clara, mas eu sinto que aquele momento foi muito intenso. Andar naquela bicicleta, que me acompanhou por muitos anos, dava-me forte sensação de liberdade. Com ela ensaiei a coragem de um futuro homem... Pulando em rampas, descendo ladeiras, abrindo mão das rodinhas. Acredito que experiências infantis refletem, e muito, na nossa vida adulta.


Vejo-me brincando com minha mãe. Em um quadro que trago em minha mente e coração. Tinha 5 anos e pouco e minha mãe estava grávida já com uma enorme barriga. Ela fez uma bola de meias e nós brincávamos no quarto. Ela de um lado da cama, eu do outro, a cama era a “rede” e nós buscávamos fazer o ponto... Acho que o ponto não era o mais importante, e sim, o fato de estarmos ali, juntos, desfrutando o momento, rindo com o corpo e a alma. De repente, ela se encolhe e emite gemidos. Eu, de pronto – com coração acelerado – pergunto: o que foi mãe? E me aproximo dela pela cama para ver o que tinha ocorrido. Chegando perto, com olhos bem atentos... Percebo-a levantar-se bem rápido para fazer seu ponto. Diante daquela inusitada ação, irrompemos em risos.


Lembro-me da festa de são João. Meu pai sempre comprava fogos. Naquelas noites íamos para o jardim da nossa casa e brincávamos. Painho ajudando-me com a estrelinha... O fogo incita a imaginação e lá, naquele momento, havia a imaginação de uma criança, o conforto da segurança oferecido pelo seu pai e muito prazer. Minha memória alerta para o momento do vulcão. Meu pai colocava-o em cima do pequeno muro de nossa casa e, juntos, eu, minha irmã e mainha, observávamos atentos e ansiosos pelo espetáculo. Muitas crianças da rua também participavam daquele cenário, igualmente atentas. Em poucos segundos acontecia o show de luzes e formas... Era lindo.


Tantas coisas boas que passaram. Tantas coisas boas que podemos viver. Vivamos hoje! Tenhamos autonomia e coragem para escrever uma história que nos seduza e a muitos outros. Um passado que não aprisione, mas que motive a viver intensamente. Uma história atenta as palavras de Jesus: “eu vim para que tenham vida e vida em abundancia” (João 10: 10b).

segunda-feira, 8 de março de 2010

A pergunta de Neemias

A Bíblia conta que, num certo dia, alguns homens viajantes entram em uma cidade importante, chamada Susã. Lá estava uma das fortalezas do grande Artaxerxes, rei da Pérsia. Dentre estes homens havia um que era irmão de um importante servo do rei que se chamava Neemias, cuja função era o de ser copeiro do rei, ou seja, aquele que todos os dias estava diante do seu senhor alimentando-se antecipadamente dos manjares reais para que, se porventura, o alimento estivesse envenenado, morresse o servo e não o rei. A posição de Neemias era de inteira confiança. E, por isto, ele era cercado de toda riqueza real.

Encontrando-se com seu irmão e aqueles homens, Neemias pergunta: “Como estão os judeus que restaram do cativeiro e Jerusalém (Neemias 1:2)?” Ante a esta pergunta, eles respondem que os judeus estão em pobreza e desprezo e que a cidade de Jerusalém está assolada. Neste momento do diálogo é possível antecipar algumas situações.

Neemias poderia ter perguntado para suscitar uma oportunidade de se vangloriar diante daqueles conhecidos. “– Que pena, Jerusalém está destruída?! Os judeus que estão lá passam fomem?! É realmente uma pena... eu aqui, “graças a Deus”, estou muito bem... vocês sabem que sou copeiro do rei? Todos os dias sirvo ao rei comendo deliciosos manjares, também estou cercado de riquezas, sou realmente muito abençoado.”

Neemias poderia ter perguntado somente por educação. Semelhante a um diálogo bem conhecido de cada um de nós: “– Tudo bem? – Tudo bem.” Ou seja, uma pergunta completamente destituída de um compromisso com a resposta. Ainda mais, uma pergunta cuja resposta esperada é uma frase evasiva, que não comunica nada.

Neemias poderia realmente estar interessado na resposta da sua pergunta, mas não imbuído de responder a ela - há respostas que merecem ser respondidas. Se assim fosse, ele ouviria atentamente seus amigos e irmão e estaria disposto a entendê-los. No entanto, aquele conhecimento não fervilharia em seu coração, tornando impossível agir.

Neemias perguntou sinceramente e com um coração sensível. Ao ouvir as respostas dos seus conhecidos ele sentou, chorou, entristeceu-se, jejuou e orou ao Deus do céu (Neemias 1:4). Ações repletas de significado que, quando juntas, resultam em grandes transformações... Mas, sobre isto falaremos em outro texto.

terça-feira, 2 de março de 2010

Constatações

Todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus. Romanos 8:28
Em tudo dai graças. I Tessalonicenses 5:18


Ontem estive em um parque. Muito bonito. Sentado, observava absorto, um lago, repleto de patos, que desfrutavam do delicioso sol que os iluminava. Ouvia também o som vibrante e alegre de crianças, que brincavam do outro lado do lago. Havia naquele momento prazer, uma alegria indecifrável, mas que estava ali. Reconstruindo minhas memórias do passeio de ontem, lembro-me que aquele parque fora outrora palco de uma visita de descoberta, a nossa primeira visita. Eu e Kézia fomos descobri-lo. Sua imagem impunha-se fria, seu gramado repleto de neve, seu lago quase todo em gelo, os patos com pequenos movimentos, sem crianças, sem sorrisos, com pouca luz.

Acho que estas duas imagens podem ser usadas como metáfora da condição humana. Em algumas situações parece que nada pode nos impedir, somos auto-suficientes, capazes, saudáveis, admirados, felizes, vibrantes, enérgicos, enfim, estamos em meio ao belo parque da vida. Noutro momento podemos estar por baixo, tristes, faltos de energia, de saúde, de perspectivas, de possibilidades, enfim, aos nestas situações, o parque está gélido e fechado.


Todos somos frágeis. Há um nivelamento, todos, não um ou outro, partilhamos de uma fragilidade universal. O poeta sugeriu, “tristeza não tem fim, felicidade sim”. Discordo. Tudo é passageiro. Assim como nas estações há lugar para o inverno, e também, para a primavera, semelhantemente é a vida.


Há sentido nisto tudo? Se, ao estarmos nas montanhas da vida, inebriados pela sensação de vitória, nos lembrarmos que “toda a carne é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva. Secou-se a erva, caiu a sua flor”(I Pedro 1:24); sim. Pois nossas vitórias são passageiras, mas, mesmo em sua fugacidade, podem se transformar numa ótima oportunidade de louvor a Deus e de prazer a ser desfrutado. Se, ao enfrentarmos as terras mais escuras e difíceis, nos lembrarmos e abraçarmos as palavras do salmista: “ainda que eu andasse pelo vale da sobra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo”(Salmo 23:4); sim. Deus sempre estará com aqueles que o buscam. E Ele tem uma capacidade incrível de transformar terrenos desolados em belíssimos jardins que atraem o sol, os mais belos patos, crianças, sorrisos e prazer.

No fim de tudo, computadas vitórias e derrotas, dores e prazeres, montanhas e vales, tenhamos conosco o mais importante, o que não se corrompe ou acaba, nossa conexão com o Pai, nossa fidelidade a sua palavra e, repletos disto, possamos em todos os momentos louvar o nosso Deus.